Como perdi um emprego na Microsoft e fundei minha Startup

Em 2012, com minha empresa próxima de comemorar 7 anos, e eu tendo passado o bastão para o novo CEO, tenho me dedicado a traçar e implementar os novos rumos da empresa, no que tange mercado e tecnologia.

E neste artigo vou descrever os detalhes conhecidos por poucos até hoje, desta história que vou lembrar até meus últimos dias na terra. Ela é bem mais engraçada para desenvolvedores de software da velha guarda do que para os seres humanos, então acho que vale a leitura.

Recentemente venho lendo sobre um ídolo meu há muito tempo, o magnata, programador e filantropo Bill Gates, quando descobri que o atual CIO (meu novo cargo!) da Microsoft é Craig Mundie.

Logo que li o nome, minha memória associou a macacos (calma, daqui a pouco vem a explicação), e lembrei de um excelente documentário sobre Open Source e Free Software: Revolution OS, que assisti há um bom tempo, onde Eric Raymond, autor do fenomenal (e ainda atual) artigo sobre a diferença entre o Open Source e o código-fonte proprietário: “The Cathedral and the Bazaar“*, faz um comentário muito bacana, que é um dos pontos altos do documentário, registrado no vídeo abaixo:

* aos interessados, existe uma versão em português. O artigo começa com a frase: “Linux é subversivo!”, que mais programadores mais novos deveriam conhecer!

Para os menos antenados no assunto, a Microsoft sempre foi o ícone do código-fonte proprietário, elaborado por uma equipe fechada dentro de uma empresa, e uma fiel opressora (em alguns casos até legalmente) do movimento Open Source, que prega o compartilhamento do código-fonte gerado entre a comunidade de desenvolvimento, e que tem como um de seus ícones o Linux, um sistema operacional concorrente do Windows, da Microsoft.

O Bill Gates, ainda na década de 70 (sim, já tinha gente programando nesta época), escreveu até uma carta aberta para programadores amadores, que indica o provável sentimento por trás do motivo da Microsoft ter evitado o movimento por tanto tempo. O documentário citado acima explica tudo isso muito bem.

Continuando com a pesquisa sobre Bill Gates, resolvi checar se a Microsoft (que trocou de logo agora) havia mudado sua visão sobre Open Source (e eu já havia ouvido alguns rumores que sim). Cheguei até este artigo da Wired, que conta sobre uma reunião da empresa em 2008, onde Bill Gates deixa claro que a empresa deve apoiar o movimento Open Source.

Foi então que entrou em cena minha nostalgia, sentimento este que tem se tornado cada vez mais comum, diretamente proporcional à minha proximidade aos 30 anos, e lembrei de uma troca de emails que fiz em 2005, com um dos alto-executivos de vendas da Microsoft Brasil na época, Dagoberto Hajjar, que me esculachou respondeu através de um email para um professor da faculdade que recentemente se envolvera em um projeto para a Microsoft.

Meu professor havia visitado a Microsoft, e teria sido informado de que a empresa possuía mais de 1.000 vagas de emprego para as quais não conseguia encontrar mão-de-obra para trabalhar. Eu, recém-formado, pós-graduando, com uma experiência com computador que já completava uns 15 anos (profissionalmente, metade disso), achei que valia a oportunidade de ter contato com alguém de lá, já que eles precisavam tanto.

A primeira parte do meu email dizia (com meus grifos):

“Estou escrevendo para ouvir alguma coisa de você [meu professor] sobre o projeto que vocês está desenvolvendo com a Microsoft, de escrever o livro sobre uma indústria nacional, relacionando o futuro e a “conectividade”, e gostaria de saber também que tipo de contato você mantém com o pessoal de lá. Tenho estudado alguma coisa da relação entre a Microsoft e a cultura do Open Source (que seria o software livre, em parte o Linux), algo do conceito de TCO (que é o Total Cost of Ownership, ou o custo total de se manter um microcomputador funcionando dentro de uma empresa), e percebo que existe um grande “turning point” chegando, e é a hora da Microsoft saber se adequar a isso, para não perder o fio da meada.”

Confesso que à época achei um pouco retrógrado dizer que o turning point era em 2005 (no meio do ano, 5 meses antes de fundar a Gestão Ativa), mas foi a maneira que encontrei de explicar ao professor que eu poderia ter algo para me diferenciar como um candidato a trabalhar lá, e que eu achava que sabia um pouco das coisas, até ler a resposta.

Antes ainda de chegar a mim a célebre resposta, enviei mais um email ao professor, com a inocência que só um recém formado pode ter (com meus grifos):

Acredito que eu possa me encaixar neste sentido, e gostaria de saber se você tem alguma idéia como eu poderia talvez aplicar para alguns destes cargos, pois como comentei no primeiro email, a Microsoft está à beira de uma grande necessidade de um movimento estratégico, tanto do software livre, quanto da internet como um  todo, e acredito que eles tenham pessoas pensando nisso à todo vapor, o tempo todo, e eu também estou pensando nisso, mas não posso ajudá-los, nem eles a mim, se eu ficar na minha casa e não for até eles [cômico, no mínimo]. Você acha que o comentário do pessoal da Microsoft de que precisam de pessoas jovens, criativas, que falem 3,4 línguas, e que “de cada 10 palavras que falam, 11 ninguém entende”, é real? Ou é apenas retórico?

O professor encarecidamente encaminhou meus dois emails ao Dagoberto, que respondeu (também indiretamente) a ele, que me encaminhou a resposta.

Segue email na íntegra, mas com meus grifos:

A Microsoft tem divulgado uma série de artigos no web-site GetTheFacts [hoje: Why Microsoft] com opiniões de profissionais da prórpria empresa e de profissionais de mercado.

Vou expressar minha opinião pessoal com base em informações que tenho de mercado (e me desculpe se exagero em alguns pontos):

1.. Temos que saber separar Open Source de Linux. Acho que seu aluno se refere a ter uma comparação entre Windows e Linux e com continuar minhas alegações com base nisto.  [Lendo meu parágrafo, alguém realmente achou que eu fiz essa confusão? Eu achei que foi a maneira mais fácil de usar uma resposta pronta, mesmo que ela não se aplicasse ao caso]

2.. O Linux, tecnicamente, pode ser comparado ao Windows for Workgroups versão 3.11 (lançado aproximadamente em 1992). A comunidade Linux se baseou em um produto ultrapassado com funcionalidade extremamente limitadas. A comunidade não tem condições de competir quando existe um salto de melhoria de tecnologia (descontinuidade tecnológica) como é o caso da versão Windows XP com MSN, bluetooth, wireless, etc. Ou, pior, então, se for comparar com o Windows 2003 Server. [Sério, galera. Sério, alguém escreveu isso!]

3.. O governo Lula tem sido o grande patrocinador do Linux (versão tupiniquim). Em 3 anos de governo eles conseguiram que, no Brasil, a adoção do Linux fosse igual a 0,8%. Se o Lula continuasse no governo por mais uns 100 anos, talvez, o Linux tivesse alguma fatia de mercado expressiva. Com a saída do Lula, tudo pode mudar.  [alguém conhece progressão geométrica? E ainda teríamos muuuito Lula pela frente]

Agora, alguns números para embassar a teoria:

1. O Brasil tem, hoje, 220.000 desenvolvedores. A Índia tem 2.8 Milhões.

2. No Brasil 30% do desenvolvimento é feito em Clipper e Cobol. Na Índia, 100% do desenvolvimento é feito em linguagens orientadas a objetos, com reusabilidade e alta produtivida. Por isto, a Índia é grande exportadora de mão de obra qualificada em tecnologia.

3. O Brasil exporta hoje USD 235 Milhões. Um pouco menos que a República Checa.

4. O Brasil é país da América Latina onde os empresários de empresas de tecnologia investem menos em treinamento e reciclagem dos seus funcionários. Ao contrário da Argentina, México e até mesmo Costa Rica.

5. O Brasil já está importando 6% de todo o software desenvolvido na América Latina, porque eles fazem software com mais qualidade e melhor preço.

Portanto, enquanto nosso governo e nossos acadêmicos ficam descutindo sobre a versão 2 da reserva de mercado, digo, Linux [e esta piada?]:

O Brasil está perdendo a competitividade no cenário internacional. Não só deixando de exportar, como passando a ser um grande consumidor de tecnologia.

Ao invés de olhar para trás e copiar um software de 10 anos atrás o governo Brasileiro deveria estar fomentando novas inciativas de aplicabilidade da tecnologia existente e posicionar o país em um cenário de competitividade internacional. Qualquer um que entenda o que está vindo pela frente, em termos de tecnologia, vê que a iniciativa Open Source não tem o mínimo cabimento. [quisera eu ter tamanha sapiência sobre o que estaria vindo pela frente]

Espero ter ajudado.

Como diria minha avó gringa: “The rest is history”.

Eu sempre gostei (e ainda gosto) muito da Microsoft, nunca fui comunista (mas pirata, sim!), e também não acredito tão fácil nas novas modas, mas parei para estudar, analisar e entender o movimento e não consegui chegar ao ponto de achar que a iniciativa Open Source não tinha cabimento, primeiro por que ela já tinha muito tempo de existência, provado muitos resultados (muito além do Linux, Apache ou Mozilla), e depois por que eu também codava (produzia código), e já tinha sentido na pele os benefícios de pensar junto de outras pessoas.

Não sei quanto tempo o Dagoberto ainda ficou na Microsoft, mas acho que foi só até o final do ano. Hoje ele trabalha como escritor e consultor independente na área de vendas. Enviei uma tréplica a ele, tentando esclarecer o caso e  que me respondeu em Novembro de 2005, mas ele respondeu apenas:

Agradeço seu email.

Estou me aposentando. O trabalho feito com o Prof. Dario e Microsoft foi um dos últimos para a área de TI.

Te desejo sucesso na busca.

Sem uma cover letter, tentei ainda me inscrever para os cargos, mas sem resposta achei mais viável abrir a empresa ainda no mesmo mês, e daqui uns anos espero que o resto seja “history” também.





8 Comentários

  1. Kuca Moraes disse:

    Não conhecia essa história, man…
    Atitude típica de baby boommer caga-regras a do Dagoberto. Ainda bem, que você tem essa postura focada em soluções e simplesmente arrumou um caminho novo pro seu sucesso diante da barreira que ele colocou.

    E quanto eu li A Catedral e o Bazar eu não imaginava que o Eric Raymond era uma versão live action do Leôncio!

    Abraço.

  2. kenaum disse:

    Foda, né? Pensa eu, desolado na época???

  3. Abrãao Raeh disse:

    Cara, bacana. Entretanto, por favor, não associe o termo “startup” com agência de desenvolvimento web. Que tipo de arranque você teve, aporte ou mesmo financiamento? Que ideia inovadora você traz? Cada um no seu quadrado. []s

  4. kenaum disse:

    Olá Abrãao, fico feliz que tenha gostado do artigo, agradeço o comentário.

    No meu caso, não associo startup à aporte ou financiamento.

    Sobre a ideia inovadora (eu diria repetível e escalável), trabalhamos no âmbito de tecnologias de gestão, já que na nossa visão a tecnologia não se restringe à “coisas” dentro de um navegador web ou um celular.

    Se tiver interesse pode ver minha definição de startup neste vídeo.

    Num bate papo talvez possamos falar mais sobre isso, se você realmente se interessar.

    Lembre-se, uma empresa não é tudo o que você consegue ver no site dela. []s

  5. Adriana Corrêa disse:

    Para começar; para mim vc escreve muito bem 🙂
    E outra coisa vc tbm é o cara, sua visão e seu foco, fez e está fazendo vc ser
    um cara de sucesso… Parabéns
    Tenho orgulho de ser sua mãedrasta 🙂

  6. Darwin Augusto disse:

    É kenaum, a resposta que você recebeu reflete exatamente o espírito de uma geração que têm visto quebras de paradigmas dia após dia.
    Contudo, ainda acredito que essa visão não reflita exatamente a visão estratégica de uma empresa como a M$, onde, não à toa, tem nos surpreendido com algumas soluções mais atuais que até pouco tempo pareciam impossíveis.

    O melhor é que esse bla bla bla todo não representa muita coisa a não ser estatísticas. Já que vivemos numa aldeia globalizada onde o limite físico não representa nada para o conhecimento.

  7. […] da história que meu professor Dario Lima contou à minha turma de faculdade, de que em uma visita à sede da Microsoft em Washington, ainda em 2004, a empresa defendeu este conceito sob a alcunha de […]

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